sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

Calor do verão

  Eu nunca gostei de calor.

  Morando em São Paulo, ainda não conhecia o calor verdadeiro. A casa, abaixo do nível da rua, é eternamente fresca, com uma bela orvalheira suavizando o poder solar que entra pela janela. Era um santuário de frescura, e a maior delícia era chegar em casa depois da escola e deitar no chão, geladinho.

  Mas me mudando pra Sorocaba isso virou folclore. O termo 'continentalidade' poderia rimar com 'trovão', tamanha a sua violência. Onde já se viu, a noite ser tão quente quanto o fim da tarde? Deitar no colchão e parecer que ele ficou o dia inteiro debaixo do sol? Encostar o corpo na parede, na esperança vã de um consolo gelado, e a encontrar mais quente que o próprio corpo. Acordar às 6 da matina e sentir o tempo já quente. Quando chove é quente. Quando nubla é quente. Quando está frio está quente.


Parece o lado de dentro de uma panela de miojo, e são 6 da manhã
  Eu nunca gostei de calor. Até agora. 

  É como diz aquele sujeito que eu esqueci o nome, algo sobre 'a forma como você vê o mundo é uma reflexão interior'. O calor continua sendo uma bosta, mas então porquê não ver as coisas com olhos diferentes? E como se melhorar e desenvolver é divertido, eis aí o resultado, depois de muito tempo.

  É gostoso sentir o calor do verão escaldante desse grande prato de sopa que é o vale onde Sorocaba deita(e rola). Dormir com o ventilador ligado, cedendo aquela ponta de acalento que segue sono adentro. Acordar cedo e já se vestir meio pelado. Tomar banho gelado todos os dias, todas as horas, até de madrugada, sentindo aquele prazer imenso que se mescla com alívio. Transpirar rios de suor no trabalho, no onibus, na cadeira na frente do pc, e não dar a mínima. Sentir o calor e pensar 'como é bom o calor do verão'. Levantar qualquer peso e transpirar. Comer e transpirar. Tomar banho e transpirar.


Sorocaba
  É um ponto de vista. Assim como aquela culpa ao fazer algo errado, que te obriga a não fazer mais e voltar aos conformes. Ou aquela dor de quando algo está errado, e você precisa fazer algo pra corrigir. Ou a cutucada na consciência pra parar de postergar. Não são coisas ruins. São coisas que tem um pequeno toque de...

  Divino.

  Creio que tudo que se segue nessa vida seja uma dádiva de Deus. Afinal, como no 'O Exorcista', até mesmo o diabo serve aos intuitos divinos. As nossas tribulações, as nossas dores, as batalhas perdidas. As humilhações, as tristezas, as vergonhas. Tudo isso serve pra algo, tudo isso nos torna humanos, nos deixa face a face com a chance de redenção. E tudo isso é uma grande dádiva. Assim como o calor que tanto me incomodava antes.

  Gosto do calor. 

Cada pôr do Sol é uma cena dramática. E escaldante.

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