sábado, 13 de junho de 2015

Senso Comum - Só faz falta quando se vai

  Faz uma existência que eu moro nessa casa. Tudo nela me parece normal a um nível quase instintivo, guiado desde as memórias da infância. A rua que faz uma curva, a árvore de ipê amarelo na frente de casa, os tijolinhos aparentes no muro. O armário embutido, que existe desde que eu sei que existo. E tem também a vista pra cidade, da laje.

  Desde sempre eu pensei "cacete, que vista de merda, só tem prédio nessa cidade!". Era uma vista para um morro ao longe, completamente bombardeado de concreto e telhados. Sem verde, sem natureza, sem nada além de cinza e os imponentes prédios no topo, fazendo uma muralha que impossibilitava ver o pôr do sol. Que bela merda, não? Isso me fazia amaldiçoar o fato de morar em SP, preso no meio da civilização.

  Mas então ocorreu um fato interessante. Como o progresso é uma coisa que existe independente de crise ou o que quer que seja(entenda """PROGRESSO"""), meu vizinho(que eu não conheço, obviamente) desenvolveu capital suficiente para: aumentar a casa! Pra cima! Exatamente na frente do campo de visão da laje!


  Então, de forma surpreendentemente rápida, como formiguinhas noite e dia, os pedreiros começaram a erguer a casa, parede por parede, laje por laje(é, a casa é alta). E a paisagem foi sumindo. E quando eu me dei conta, lamentei horrores. O que antes era uma paisagem panorâmica da cidade e dos prédios, muito ao longe, virou uma parede com janelas para a minha casa, o que provavelmente vai diminuir o nível de privacidade que antes existia por aqui também.

  Sim, aquela paisagem cinza já está fazendo falta. Nem tanto pelo fato de que a privacidade será minada, mas porque agora estamos mais presos, mais cercados. O cinza se aproximou, lá da distância, para apenas alguns metros. Em breve vai ser como morar entre prédios. 


  E todo aquele silêncio simpático e compreensivo da meia noite, quando as pessoas dormem e os carros diminuem seu fluxo, agora vai ficar menos legal. Mais oprimido visualmente. Tudo em nome do progresso. 

Saudades visão panorâmica