domingo, 31 de agosto de 2014

Solidão

  No começo de 2012, passado meu tempo de luto amoroso, começou o processo de recuperação e o meu caminho pra me tornar uma pessoa 'auto-suficiente'. Sabia que grande parte disso envolvia aprender a ficar só.

  Aprender a ficar sozinho e gostar da minha própria companhia.

  Ainda estou exercitando. De certa forma é uma coisa amarga. Ainda que involuntária. Relacionamentos que se iniciam e se vão antes que a rotina e a cumplicidade se assentem e criem forma. Pessoas que se vão e continuam suas vidas, e eu me sinto estagnado, parado no tempo, deixado pra trás. É um gosto amargo. Querer ter um relacionamento mas ter alguma engrenagem aqui dentro que me impede. Destino? Karma? Problemas psicológicos? Falta de porrada? Não sei, talvez nunca saiba.

  Porém existem certas coisas que esse estado garante. Liberdade. O direito de ir e vir. A possibilidade de ainda existir a pessoa perfeita lá fora, talvez pensando o mesmo que eu. A possibilidade de virar padre um dia(q?). Independência. Total comprometimento comigo e as minhas vontades.

  Pode-se pensar que é um tipo de egoísmo. Mas já tentei não ser, e eis que criei mais discórdia no mundo(ou assim me senti). Talvez agora soe como um pretensioso altruísmo. Não importa, é o que é, assim como a realidade.

  Em dias de chuva e céu nublado essa dor vem um pouco mais forte, acentuando a falta de calor humano, de contato físico, da presença de alguém. De alguém com quem se preocupar e vice versa. Mas dá também aquele toque melancólico da paisagem de quem busca algo, algo que não sabe o que é. Uma curva no amanhã, uma reviravolta daqui um mês, um infortúnio, outra dor. Estar perdido sem nunca ter se achado.

  Tudo no mundo tem dois lados, as facas, as moedas, as histórias. Nem tudo é ruim, nem tudo é bom. Ying e yang, e essas são as nossas tribulações na Terra, e assim temos de ir andando.
O silêncio e a ausência de presença

quarta-feira, 20 de agosto de 2014

O primeiro passo

  Agora estou definitivamente empregado, pelo tempo que conseguir permanecer no mesmo. Como diz Rolf Potts no seu livro "Vagabonding: An Uncommon Guide", a jornada começa no instante em que a sua mente começa a trabalhar nos esforços para tornar realidade a sua viagem. No meu caso, começou com arrumar um trabalho pra quitar as dívidas que eu tenho e me provisionar financeiramente pra não passar apertos, se possível, por alguns vários meses, talvez anos!

  Nunca tive muitos empregos, admito, mas algo que meu pai me disse anos atrás permanece na minha mente até hoje: o trabalho pesado enobrece o homem. Já trabalhei em escritórios, mas a rotina nunca me apeteceu, aquela coisa de ficar sentado em uma cadeira, debaixo do ar condicionado, de frente pra um computador por várias horas ao dia, fazendo coisas que não são nenhum um pouco interessantes e totalmente mecânicas. Gostava das pessoas ao meu redor, o trabalho não cansava fisicamente, mas ainda assim, não me deixava feliz, e sempre retornavam as lembranças dos dias em que eu trabalhei como pedreiro com meu pai.

  Ainda sinto falta daqueles dias. O céu acima da minha cabeça, não mais andares de um prédio; sentindo a brisa, hora quente, hora fresca, e às vezes gélida; sentindo o calor do sol nas costas, escondido debaixo de um enorme chapéu de palha, ou sendo fustigado pela chuva gelada. Vi louva-deuses filhotes e adultos, do verde ao laranja, vi aranhas do tamanho da minha mão, vi aves de rapina caçando, um dia até vi duas sacolas subindo em espiral até não conseguir mais, depois de uma lufada de vento repentina. Ficava cansado, o trabalho era muito pesado, mas sinto falta daquilo também, de me sentir completo, de me sentir inteiro por fazer uma coisa honesta, com o suor do meu próprio esforço. Trabalho na frente de um computador jamais, JAMAIS poderá me trazer a mesma sensação.

  Agora trabalho como repositor no mercado. O trabalho é pesado, fico dentro do mercado o tempo todo e não vejo as mudanças do céu lá fora, mas ainda assim... me sinto feliz. Vou e volto de bike, de tarde e de noite, tenho contato com pessoas simples e generosas e mais importante: eu me sinto completo ao exercitar meu corpo para o meu sustento. De certa forma, e ainda preciso aprofundar essa linha de pensamento, me sinto mais próximo de Deus dessa forma. 

  E mais importante de tudo: a cada dia eu me aproximo do grande dia, do dia em que eu vou pra Estrada Real, e de lá, só Deus sabe. Mas aqui, é onde eu não fico.
Pelo direito de sentir o sol e o vento, todos os dias