segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

Sobre cadência

  Recentemente, através das curvas da vida, veio à mim a ideia de ir ao Nihon trabalhar.

  Mais dinheiro em menos tempo, em troca do quase mesmo esforço laboral, em uma terra onde tudo seria novidade e aventura seria o dia a dia. Juntar em um ano o que eu levaria vários e vários anos, o que me possibilitaria capitalizar para a minha viagem de melhor maneira e em um tempo menor. 

  Mas a ideia me abandonou. 

  Deixar família e amigos para trás, ir pro outro lado do mundo pra depois voltar pra cá, onde está meu verdadeiro objetivo...

  Mas mais do que isso, creio que o que me levou a deixar essa ideia pra trás foi outra coisa. Foi a cadência.

  A cadência dos dias mornos. Do trabalho diário, da recompensa de chegar em casa e encontrá-la como eu deixei. De viver a rotina diária e não agonizar nela. De acordar todos os dias com Alexei me mordendo/miando/amassando, tomar meu banho e meu café aguado e ir pro trabalho, sem achar isso ruim. De esperar pelo Domingo, e apreciá-lo da forma devida. De ver belas moças por aí e não ansiar pela sua posse/companhia, apenas apreciando a sua existência.

Pirilampo que me acompanha

  Ouvir minhas músicas, seja Death Metal, seja Hip Hop Instrumental. Ver os dias passando e o céu mudando, sempre perfeito em sua complexidade mutável. Ser surpreendido por ocasiões. Passar pelas tribulações e dificuldades, pelos testes e tentações, e quase sempre falhar, pra depois pensar em como não fazer na próxima vez. 

  De forma física, essa situação cotidiana se assemelha ao calor e a minha apreciação pelo mesmo. Algo denso, que te engole, e é quase possível nadar nele. 
  E não há coisa melhor do que isso.

Acho que é hora de começar a tirar fotos de outros lugares

sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

Calor do verão

  Eu nunca gostei de calor.

  Morando em São Paulo, ainda não conhecia o calor verdadeiro. A casa, abaixo do nível da rua, é eternamente fresca, com uma bela orvalheira suavizando o poder solar que entra pela janela. Era um santuário de frescura, e a maior delícia era chegar em casa depois da escola e deitar no chão, geladinho.

  Mas me mudando pra Sorocaba isso virou folclore. O termo 'continentalidade' poderia rimar com 'trovão', tamanha a sua violência. Onde já se viu, a noite ser tão quente quanto o fim da tarde? Deitar no colchão e parecer que ele ficou o dia inteiro debaixo do sol? Encostar o corpo na parede, na esperança vã de um consolo gelado, e a encontrar mais quente que o próprio corpo. Acordar às 6 da matina e sentir o tempo já quente. Quando chove é quente. Quando nubla é quente. Quando está frio está quente.


Parece o lado de dentro de uma panela de miojo, e são 6 da manhã
  Eu nunca gostei de calor. Até agora. 

  É como diz aquele sujeito que eu esqueci o nome, algo sobre 'a forma como você vê o mundo é uma reflexão interior'. O calor continua sendo uma bosta, mas então porquê não ver as coisas com olhos diferentes? E como se melhorar e desenvolver é divertido, eis aí o resultado, depois de muito tempo.

  É gostoso sentir o calor do verão escaldante desse grande prato de sopa que é o vale onde Sorocaba deita(e rola). Dormir com o ventilador ligado, cedendo aquela ponta de acalento que segue sono adentro. Acordar cedo e já se vestir meio pelado. Tomar banho gelado todos os dias, todas as horas, até de madrugada, sentindo aquele prazer imenso que se mescla com alívio. Transpirar rios de suor no trabalho, no onibus, na cadeira na frente do pc, e não dar a mínima. Sentir o calor e pensar 'como é bom o calor do verão'. Levantar qualquer peso e transpirar. Comer e transpirar. Tomar banho e transpirar.


Sorocaba
  É um ponto de vista. Assim como aquela culpa ao fazer algo errado, que te obriga a não fazer mais e voltar aos conformes. Ou aquela dor de quando algo está errado, e você precisa fazer algo pra corrigir. Ou a cutucada na consciência pra parar de postergar. Não são coisas ruins. São coisas que tem um pequeno toque de...

  Divino.

  Creio que tudo que se segue nessa vida seja uma dádiva de Deus. Afinal, como no 'O Exorcista', até mesmo o diabo serve aos intuitos divinos. As nossas tribulações, as nossas dores, as batalhas perdidas. As humilhações, as tristezas, as vergonhas. Tudo isso serve pra algo, tudo isso nos torna humanos, nos deixa face a face com a chance de redenção. E tudo isso é uma grande dádiva. Assim como o calor que tanto me incomodava antes.

  Gosto do calor. 

Cada pôr do Sol é uma cena dramática. E escaldante.